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Geral
29 dez

Queimadas e desmatamento ameaçam o Cerrado brasileiro

Cerca de 40% das plantas do bioma são endêmicas e se desenvolvem exclusivamente na localização. Especialistas alertam para a necessidade de manejo correto do fogo – (crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Árvores retorcidas de casca grossa e raízes profundas testemunham a resistência do Cerrado frente ao tempo e à ação humana. Entre a vegetação rasteira, animais de todos os portes encontram abrigo, e rios cristalinos nascem como artérias, distribuindo água para grande parte do Brasil. Considerada berço das principais bacias hidrográficas do país, a vegetação encarou em 2024 queimadas em ritmo acelerado que ameaçaram tornar pó um dos maiores pontos de diversidade de todo o planeta.

Especialistas alertam que os incêndios criminosos já comprometem a capacidade de recuperação da região, colocando em risco não apenas a biodiversidade, mas também a segurança hídrica e climática de todo o país. Os alertas se tornam ainda mais urgentes para 2025 e sem ações imediatas o segundo maior bioma do país corre sério risco.

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Cerrado enfrentou um ano devastador, as queimadas atingiram cerca de 9,6 milhões de hectares — maior área já registrada desde o início do monitoramento pelo MapBiomas Fogo, em 2019. Ane Alencar, diretora do instituto, ressalta que esse número é 93% superior ao registrado em 2023, quando 4,9 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo.

O dado mais alarmante é que grande parte das áreas queimadas correspondem à vegetação nativa do bioma, considerada a mais rica em diversidade: “Grande parte do que queimou no bioma foi vegetação nativa, principalmente as áreas que a gente considera no mato biomas como vegetação tipo savana, que são essas áreas de cerrado, stricto sensu, que tem ali o componente de gramínea, um componente de arbustos e de árvores”, explica.

Segundo levantamentos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), um dos órgãos responsáveis pelo cuidado e o manejo do fogo no Cerrado, as queimadas no bioma têm diferentes origens. A única causa natural ocorre por raios, geralmente no início da estação chuvosa. Já na época seca, a maioria dos incêndios é provocada por ação humana, seja por descuido em atividades agrícolas, queima de resíduos ou limpeza de terrenos, quando o fogo foge do controle, seja de forma intencional, como em queimadas ilegais para expansão de terras ou por retaliação.

Também há incêndios causados por acidentes com linhas de transmissão, maquinário agrícola ou veículos. Entretanto, Alencar explica que, embora o fogo seja frequentemente associado à destruição, ele tem um papel único no Cerrado. “Nem todo fogo no Cerrado é ruim. Muitas espécies são resistentes, adaptadas e até dependem do fogo para seu ciclo de vida. O impacto depende da intensidade, frequência, intervalo e período em que ocorre”, explica Ane.

Sarah Fontoura, pesquisadora em ecologia e coordenação de manejo integrado do fogo do ICMBio, afirma que o bioma tem uma grande capacidade de recuperação natural devido à alta resiliência da sua vegetação e fauna. No entanto, “em alguns lugares, esse distúrbio e degradação foram tão intensos que a natureza por si só, não consegue se recuperar sozinha”.

Assim, práticas de recuperação são necessárias para restaurar áreas degradadas e garantir que os serviços ecossistêmicos perdidos sejam restabelecidos. Fontoura também alerta para os impactos hídricos causados pela destruição do Cerrado, que afetam não apenas a área local, mas toda a bacia hidrográfica. “Esses impactos hídricos não são sofridos só no local, mas ao longo de toda a bacia hidrográfica”, diz. Segundo ela, a vegetação associada aos cursos de água é mais sensível ao fogo, pois “não evoluiu com a presença do distúrbio e, por isso, não desenvolveu adaptações ao fogo”.

Pouca visibilidade
Sarah Fontoura explica ainda que, historicamente, ecossistemas florestais recebem mais visibilidade e valorização, enquanto ambientes abertos, como as savanas e o Cerrado, são muitas vezes considerados apenas como degradação de florestas. Expressões como “savanização de florestas” são usadas para se referir a florestas degradadas, refletindo essa visão distorcida. Ela explica que essa falta de reconhecimento da importância do Cerrado traz consequências significativas, como o aumento da pressão de exploração sobre o bioma.

Além disso, a facilidade de cultivo no Cerrado, devido ao relevo mais plano e ao acesso facilitado por maquinários e infraestrutura, torna o bioma mais vulnerável. “Quando você não enxerga a importância devida daquele bioma, você acaba tendo uma maior pressão de exploração sobre o cerrado”, avalia Fontoura.

O Cerrado é considerado um dos 35 hotspots (locais que concentram alta biodiversidade) do mundo, devido à sua grande variedade de espécies e ao fato de muitas delas serem exclusivas do bioma. Isabel Schmidt, coordenadora do Rede Biota Cerrado, afirma que muitas espécies do Cerrado já foram extintas, enquanto outras sequer foram registradas.

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Cerca de 40% das plantas do bioma são endêmicas, espécies que se desenvolvem exclusivamente em uma determinada região geográfica. Schmidt destaca que, devido à alta diversidade e ao elevado endemismo do Cerrado, a devastação do bioma é ainda mais preocupante. “Dependendo da área que você desmata no Cerrado, você pode simplesmente extinguir uma espécie inteira”, diz.

Apesar do bioma ter sido o segundo mais degradado do país em 2024, o Cerrado ainda é pouco estudado em comparação com biomas como a Amazônia e a Mata Atlântica. A escassez de estudos está relacionada à “pouca pesquisa e poucas instituições nessas áreas tropicais, muitas vezes localizadas em regiões mais pobres”, conforme destaca a pesquisadora.

Schmidt enfatiza que, ao perdermos a vegetação nativa, também “perdemos diversidade”: “Se alguma dessas áreas não estudadas tinha algum potencial, por exemplo, farmacêutico, que pudesse nos ajudar a curar uma doença e coisa assim, a gente perdeu sem nem saber. Quando a gente tem uma grande perda de vegetação nativa, a gente tem grande perda de diversidade”, explica a especialista.

Agronegócio e o futuro
É inegável como o agronegócio no Cerrado brasileiro é essencial para a economia, sendo responsável por cerca de 60% da produção agrícola, com destaque para a soja, que ocupa 48% da área plantada no país. Contudo, a expansão agrícola é um dos principais vetores de impactos ambientais, como o desmatamento e a conversão de terras, afetando ecossistemas e a qualidade da água, principalmente no Cerrado. Isso compromete a produtividade, como evidenciado pela perda de 11,9 milhões de toneladas de soja na safra 2023/24.

Isabel Schmidt acredita que para 2025, o Cerrado precisa apostar em um agronegócio responsável. A atividade agropecuária é considerada uma das principais responsáveis pelas mudanças climáticas. Entretanto, a especialista alerta que quanto mais o bioma se degrada, mais difícil as condições para o agronegócio ficam. “Então, ao mesmo tempo que o agronegócio é vilão do desmatamento e é vilão das mudanças climáticas, é também uma das primeiras vítimas”, afirma.

Maurício Macron, do ICMBio, destaca a evolução no entendimento sobre o uso do fogo no Cerrado, enfatizando a necessidade de um manejo integrado. Ele explica que, ao invés de ver o fogo como um inimigo, é essencial compreender seu papel nas necessidades tanto da sociedade quanto do bioma.

“Estamos em um país com um avanço da história do manejo integrado, então não olhamos mais o fogo como um inimigo. A sociedade tem suas necessidades e o cerrado tem sua necessidade também do fogo no manejo”, diz.

Para Macron, o fogo controlado, quando bem regulado, pode ser benéfico, e é importante garantir que os agricultores que utilizam essa prática o façam dentro de um sistema legal e seguro. “O fogo é permitido e vai continuar sendo feito por muitos sujeitos do campo nessa situação, então discriminar essa história toda é uma coisa que ajuda bastante”, avalia.

Ele enfatiza que os órgãos públicos devem garantir as condições adequadas para que o uso do fogo controlado seja seguro e autorizado quando necessário. “Para isso, os órgãos públicos condições de darem a devida autorização quando ela é possível de ser feita”, complementa.

Na avaliação de Isabel Schmidt, se o Brasil deseja manter sua relevância no mercado global, é fundamental preservar as vegetações naturais, que são responsáveis por recursos vitais como água, solo fértil e controle de pragas.

“O agronegócio brasileiro se orgulha de ser importante para a balança comercial brasileira, porque a gente exporta muita commodity, basicamente soja, milho e algodão. A gente vai deixar de ter essa importância mundial se a gente não cuidar das nossas vegetações naturais, que são quem nos dão água, quem nos dão solo fértil, quem nos dão controle de pragas agrícolas por meio de bichos nativos”, destaca.

*Estagiária sob a supervisão de Rafaela Gonçalves

Fonte: Correio Braziliense

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Geral
29 dez

Feriados 2025: veja em quais dias cairão as datas comemorativas

Praias de Fortaleza. Com feriados prolongados, opções por um banho de mar podem se tornar uma realidade –
Diferente deste ano, a maioria dos feriados em 2025 vai cair em dias de semana. Ao todo, serão 12 dias de descanso ao longo do próximo ano. Deste montante, oito cairão em dias de semana e outros quatro estão distribuídos entre sábados e domingos.

Confira os dias de feriados nacionais:
As primeiras 24 horas do ano, nesta quarta-feira (1º/1), marcarão o feriado de Dia da Confraternização Universal.

Não haverá feriados nacionais

Carnaval será feriado nacional em duas datas: 3 e 4 de março. Em dias na semana, o feriado da festa de momo cairá na segunda e terça-feira, respectivamente.

O primeiro feriado nacional no quarto mês do ano será o da Semana Santa, celebrado em uma sexta-feira, dia 18. Após a data festiva católica, será o momento de o trabalhador e o estudante brasileiro folgar no feriado de Tiradentes, que será celebrado em uma segunda-feira, no dia 21.

A celebração do líder da Inconfidência Mineira será realizada em uma segunda-feira após o final um sábado e domingo que sucedeu a Semana Santa. Isso significa que a junção das duas datas pode gerar um feriadão!

O último feriado do primeiro semestre de 2025 será o Dia do Trabalho, em 1º de maio, uma quinta-feira.

Setembro é o mês da celebração da Independência do Brasil, com feriado no dia 7 de setembro deste ano, um domingo.

Os feriados nacionais de 2025 continuam com a Dia de Nossa Senhora Aparecida, que será celebrada no dia 12 de outubro, um domingo.

Assim como os feriados de Independência e de Nossa Senhora Aparecida, o dia de Finados cairá em um domingo, no dia 2 de novembro. O penúltimo mês do ano também terá o Dia da Proclamação da República, no dia 15, um domingo; e o Dia da Consciência Negra, previsto para 20 de novembro, uma quinta-feira.

Então é natal! Para fechar o calendário de feriados nacionais de 2025, o Papai Noel chegará com a magia de natal para celebrar, nas religiões cristãs, o nascimento de Jesus, no dia 25 de dezembro, uma quinta-feira.

Fonte: Correio Braziliense

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29 dez

Volume de água acumulado nos reservatórios públicos do RN chega ao final de 2024 com o melhor resultado desde 2011

Foto: ASSECOM RN

O volume de água acumulado nos reservatórios públicos do Rio Grande do Norte chega ao final de 2024 com o melhor resultado desde 2011, quando a barragem Armando Ribeiro transbordou pela última vez. A informação consta de relatório divulgado na sexta-feira (27) pelo Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn).

Segundo o instituto, as reservas hídricas superficiais totais do estado, nos últimos dias de 2024, somam 2,85 bilhões de metros cúbicos, o que representa 62,82% da capacidade total, que é de 4,54 bilhões. No mesmo período de 2023, as reservas hídricas acumulavam 2,25 bilhões ou 52,03% da capacidade total.

Maior reservatório do RN, a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, na bacia hidrográfica Piranhas/Açu, acumula 1,61 bilhão de metros cúbicos, correspondentes a 67,97% da capacidade. O percentual é 13,5% superior ao apresentado no final de 2023, quando o manancial acumulava 1,29 bilhão.

A segunda maior barragem do estado, Santa Cruz do Apodi, acumula 429,2 mil metros cúbicos (71,58%). O volume atual é 12,46% superior ao de 2023. Já a Barragem Umari, localizada em Upanema, está com 228,6 mil m³, ou 78,09% da capacidade.

Popularmente conhecida como Gargalheiras, a Barragem Marechal Dutra, que em 03 de abril atingiu o nível de sangria depois de 13 anos, acumula 33,19 milhões de metros cúbicos, volume que garante o abastecimento de Acari e de Currais Novos por mais dois anos, mesmo que não haja recarga em 2025.

Atualmente, oito reservatórios apresentam volumes inferiores a 10% da capacidade, entre eles a Barragem Sabugi, em São João do Sabugi; Esguicho, em Ouro Branco; Carnaúba, em São João do Sabugi; Jesus Maria José, em Tenente Ananias; Tourão, em Patu; Brejo, em Olho d’Água do Borges; e Mundo Novo, em Caicó.

O Itans, que durante muito tempo foi o principal reservatório do Seridó e que assegurou o fornecimento de água para o sistema de abastecimento de Caicó de 1936 a 1999, está com menos de 1% da capacidade, que é de 81,7 milhões de metros cúbicos.

Para 2025, o Rio Grande do Norte ganhará dois importantes reforços no quesito segurança hídrica: as barragens Oiticica, em Jucurutu, e a Passagem das Traíras, em São José do Seridó. Com a entrega desses dois equipamentos, o estado superará a marca de 5 bilhões de metros cúbicos, o que representa um avanço significativo na capacidade de armazenamento e gestão dos recursos hídricos, assegurando água para alimentar o complexo de adutoras do Seridó pelos próximos 50 anos.

Portal da Tropical

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Rio Grande do Norte
29 dez

Construção civil e mercado imobiliário do RN projetam aquecimento em 2025


Foto: Canindé Soares

Os mercados imobiliário e da construção civil do Rio Grande do Norte estão otimistas para o próximo ano, depois de um cenário positivo em 2024. De acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o setor de construção civil cresceu 4,1% em 2024 no País e para 2025, a expectativa é de uma nova alta, desta vez de 2,3%. No RN, de acordo com a diretora executiva do Sinduscon-RN, Herika Arcoverde, não há dados sobre o desempenho local, mas, segundo ela, o Estado segue a tendência de crescimento do Brasil. Os reflexos são observados nas vendas do setor imobiliário, que registram alta de 7,22% em Natal na comparação com 2023, segundo Conselho Regional de Corretores de Imóveis do RN (Creci-RN).

As locações na cidade tiveram aumento de 21,1%, de acordo com o Creci-RN. Para a CBIC, o resultado positivo no Brasil se deve a fatores como o aquecimento do mercado imobiliário pela retomada de obras do Programa Minha Casa, Minha Vida, das obras em função do ano eleitoral, do dinamismo do mercado de trabalho e do melhor desempenho da economia do País. No RN, segundo Herika Arcoverde, a revisão do Plano Diretor tem sido o principal estímulo do setor, que deve ganhar reforço com obras de infraestrutura, em 2025.

“Nós temos observado o crescimento do setor desde 2023, graças ao Plano Diretor [PDN], que proporciona a viabilidade de diversas construções. Desde o início da vigência do PDN, a Semurb [Secretaria de Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo] registra, em média, 60 processos em pauta referentes a alvarás e licenças. E agora temos a perspectiva das obras do próprio Estado em relação ao novo PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], com a previsão do novo hospital da Região Metropolitana. Por essas razões, entendemos que as obras de infraestrutura farão de 2025 um ano bastante promissor”, avalia Herika Arcoverde.

O diretor secretário do Creci-RN, Moisés Marinho, disse que a expansão da construção civil é bem-vinda em um momento em que ainda se observa uma carência de imóveis na cidade. A expansão, por sua vez, incrementa o setor imobiliário, que vende e aluga mais. “Existe uma carência, especialmente, de imóveis de três quartos, mas agora temos novos produtos do tipo em lançamento, com destaque para bairros como Lagoa Nova, Capim Macio e Petrópolis”, pontua Marinho. Ele cita que algumas áreas da cidade sofreram um engessamento, em função da demora em revisar o PDN.

“Algumas áreas sofriam com limitações, mas, mesmo com o Plano precisam de ajustes. É o caso de Candelária, na região perto de um supermercado clube de compras, onde o saneamento precisa ser finalizado. Acredito também que dá para expandir as construções na Rota do Sol, nas proximidades da Barreira do Inferno. É possível pensar, ainda, na área do Mercado da Redinha [na zona Norte], onde pode-se projetar algo com base no PDN”, frisa Moisés Marinho.

Outro reflexo do bom desempenho da construção civil do RN, segundo Herika Arcoverde, do Sinduscon, é a quantidade de empregos acumulada em 2024. “Até novembro, foram 6.248 empregos no setor, que corresponde a cerca de 35% dos postos gerados na Indústria em geral”, aponta. Os dados do acumualdo de 2024 até o final de novembro são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados na última sexta-feira (27) pelo Ministro do Trabalho e Emprego (MTE).

Reportagem completa na Tribuna do Norte

Campo Forte
Geral
29 dez

Como sites de jogos de azar transformam Brasil no paraíso de golpistas

Reprodução

Divulgada em profusão na internet, a prática virou febre entre brasileiros nos últimos anos, sobretudo desde a pandemia da Covid-19. Trata-se de uma espécie de máquina de caça-níquel virtual, onde o objetivo é, contando com a sorte, obter combinações que rendam prêmios.

Embora o Tigrinho, em si, não seja ilegal — ele pode, inclusive, ser operado por bets autorizadas a atuar no país — a natureza do jogo abre espaço para manipulações e golpes, como quando é programado para não bonificar apostadores ou impede a retirada de valores conquistados.

Na ação de agosto, o Serviço de Investigação Criminal (SIC) de Angola apreendeu 223 computadores e 113 celulares usados na criação de perfis falsos nas redes sociais. No esquema, 113 angolanos atuavam em turnos de 12 horas no call center pelo qual interagiam com os clientes brasileiros, seduzidos pela ilusão de ganho fácil. A estrutura também era usada para captar dados bancários e pessoais das vítimas.

— É uma estrutura financeira complexa, com transferências de valores do Brasil para vários pontos do mundo, e desses pontos para Angola. Em euros ou dólares, esse dinheiro era depois convertido em kwanzas (moeda local) para realimentar a rede criminosa — descreve Manuel Halaiwa, porta-voz do SIC.

O GLOBO identificou nove plataformas clandestinas operadas a partir do hotel Sunshine. No Instagram e no Telegram, principais meios de divulgação desses sites, elas anunciam suas atividades como se fossem concorrentes, mas eram tocadas do mesmo endereço, quando não do mesmo computador. Todas têm como principal atração o Jogo do Tigrinho e as variantes que incluem outros animais do horóscopo chinês, como coelho, rato, porco, touro e dragão.

Quatro meses após as prisões, as plataformas YYDBet, DTBet, Globaljogo, Mundojogo, LLLBet, Rei KF, EeeBet, KF-Topo e PPPJogo seguem no ar, angariando apostadores brasileiros. Nenhuma delas consta na lista do Ministério da Fazenda, divulgada neste segundo semestre, de páginas autorizadas a operar no país.

Em outubro, uma nova operação da polícia angolana desmantelou outro esquema similar. No hotel Diamond Black, também em Talatona, um ugandês e oito chineses, com idades entre 19 e 36 anos, foram presos por montarem uma central de golpes com foco no Brasil. Uma oficina mecânica servia de fachada para os criminosos.

Uma das atividades ilegais do grupo era a divulgação do cassino on-line LNBet, que tem o Jogo do Tigrinho como principal atração. Cada operador angolano recebia diariamente 700 números de celulares brasileiros. Mediante a promessa de bônus em dinheiro, eles convenciam as vítimas a apostar na plataforma. Assim como no primeiro caso, os sites permanecem a pleno vapor, bem como os grupos que os divulgavam nas redes, com novos lançamentos.

— As estruturas dessas organizações criminosas não são piramidais, com um líder máximo no vértice superior. São redes neurais espalhadas pelo mundo — explica, de modo geral, o delegado Felipe Leal, da Divisão Nacional de Repressão à Lavagem de Dinheiro e Recuperação de Ativos da Polícia Federal (PF).

A investigação em Angola mostrou que influenciadores do Brasil são aliciados para divulgar os sites fraudulentos. Eles são recompensados com comissões que variam a depender dos depósitos feitos por novos apostadores.

Uma dessas personagens é Wendy Pereira, que, em outubro de 2023, compartilhou no Instagram um vídeo da festa de lançamento da DTBet. Na gravação, Wendy aparece ao lado de outras jovens em uma van rumo a um restaurante luxuoso em Barra de São Miguel (AL). As imagens de passeios de barco, quadriciclo e champanhe estourando são intercaladas com a de apostas supostamente bem-sucedidas no Tigrinho.

Em novembro do mesmo ano, o influenciador Igor Aventureiro publicou um vídeo no qual caminha em uma praia paradisíaca até parar diante de um “X” marcado na areia, onde se lê o nome da plataforma chinesa YYDBet. Igor aparece cavando com as mãos até encontrar várias notas de R$ 100 e R$ 50. “YYBet realizando sonhos”, escreveu. As prisões em Angola, associadas aos dois sites, não acanharam a dupla, que não cessou as divulgações. Eles não responderam ao contato do GLOBO.

Nos últimos dois anos houve aumento de ações policiais no Brasil mirando responsáveis por divulgar o Tigrinho. É comum que investigados de diferentes estados relatem que, por trás dos sites, estavam cidadãos chineses, que tratam como “chefes”. Os influenciadores, contudo, demonstram pouco conhecimento dos meandros do esquema e sequer sabem os nomes dos supostos patrões, como frisam investigadores ouvidos pelo GLOBO.

A apuração que mais chegou perto de entender a operação foi conduzida pela Polícia Civil do Distrito Federal e levou ao indiciamento da ex-BBB Adélia Soares por falsidade ideológica e associação criminosa. Advogada da influenciadora Deolane Bezerra, ela foi apontada como a responsável por abrir de forma irregular uma empresa para chineses operarem jogos ilegais no país.

Registrada em Suzano (SP), a Playflow era uma processadora de pagamentos que recebia os valores das apostas feitas nas plataformas. O dinheiro seguia para outras intermediadoras até sair do país para Curaçao, paraíso fiscal no Caribe, via transações com CPFs de pessoas mortas. Procurada, Adélia não retornou, mas alegou atuar “dentro da legalidade” quando o caso veio à tona.

— Como essas empresas não precisam de autorização do Banco Central, estão fora de várias normativas, e o fluxo financeiro fica fora de controle — diz o delegado Erick Sallum, responsável pela investigação. — É uma instituição de pagamento dentro da outra, como uma boneca russa.

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O Globo

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