Famílias do RN comprometem 76,9% da renda mesmo com alta nos ganhos
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O comprometimento médio da renda das famílias do Rio Grande do Norte foi de 76,9% entre 2022 e 2025, segundo levantamento da Serasa Experian. No período, o indicador apresentou queda gradual, passando de 77,9% em 2022 para 76,3% em 2025. A trajetória de redução pode ser observada ao longo dos anos: 77,9% (2022), 77,1% (2023), 76,6% (2024) e 76,3% (2025). Com os resultados, o Rio Grande do Norte permanece abaixo da média do Nordeste, região que tem 78% da renda comprometida, segundo a Serasa.
A renda média no estado registrou crescimento gradual, saindo de R$ 2.868 em 2022 para R$ 2.969 em 2025. Entretanto, essa elevação não foi suficiente para aliviar de forma significativa o orçamento das famílias.
“Mesmo com o aumento da renda média desde 2022, os dados mostram que as despesas financeiras evoluíram praticamente no mesmo ritmo, o que manteve o comprometimento em patamares elevados. Isso indica que o ganho de renda não se traduziu, necessariamente, em maior folga no orçamento das famílias”, analisa Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.
De acordo com a Serasa, o indicador utilizado no estudo considera um conjunto amplo de despesas, incluindo gastos básicos e financeiros, como contas de consumo, crédito e outras obrigações recorrentes. “O que significa que, embora a renda tenha crescido, a estrutura de gastos das famílias permaneceu pressionada, limitando a recomposição da margem disponível no orçamento”, acrescentou Abdelmalack.
O Nordeste está entre as regiões com maior pressão no orçamento das famílias, com cerca de 78% da renda comprometida. Em seguida aparece o Centro-Oeste, com 74,7%. Já o Sudeste (72,7%) e o Sul registram os menores níveis, indicando maior fôlego relativo no orçamento das casas.
O comprometimento de renda indica a porcentagem da receita mensal destinada ao pagamento de dívidas e despesas fixas, como aluguel, empréstimos, parcelas de financiamentos e contas essenciais. Quanto maior esse percentual, menor a margem para gastos supérfluos ou poupança, impactando a capacidade das famílias de lidar com imprevistos e manter equilíbrio financeiro.
No RN, onde a renda média é mais baixa em comparação a outras regiões do país, as famílias acabam destinando uma parcela maior dos ganhos para despesas básicas e financeiras. “O peso relativo das despesas tende a ser maior em relação à renda disponível”, aponta a economista-chefe da Serasa Experian.
Essa diferença também se reflete na renda média. O Sudeste lidera, com R$ 4.448, seguido pelo Sul (R$ 4.308) e pelo Centro-Oeste (R$ 4.296). Já o Norte tem renda média de R$ 3.018, enquanto o Nordeste apresenta o menor valor do país, com R$ 2.821 — uma diferença de R$1.627 em relação à maior média regional.
Mesmo com a melhora da renda média nos últimos anos, especialistas alertam que o percentual do RN ainda é alto. Na prática, isso dificulta lidar com imprevistos, planejar compras maiores e até acessar crédito em condições mais favoráveis.
NE tem menor renda per capita do País
Para o economista Helder Cavalcanti, o maior comprometimento da renda é resultado de fatores estruturais históricos e sociais. “A região (Nordeste) apresenta, em média, menor renda per capita e maior informalidade no mercado de trabalho, o que torna a renda mais instável. Além disso, os gastos com itens essenciais consomem uma parcela maior do orçamento, deixando pouca margem para ajuste”, comenta.
Apesar do avanço da renda nos últimos anos, o alívio financeiro não ocorreu na mesma proporção. Segundo o economista, isso se deve a uma combinação de fatores econômicos e comportamentais.
“Do ponto de vista econômico, a inflação — especialmente em itens essenciais como alimentos, energia e serviços — reduziu o ganho real. Ao mesmo tempo, a ampliação do crédito facilitou o consumo imediato, na grande maioria das vezes sem o mínimo planejamento”, pondera Cavalcanti.
Ele também destaca o chamado “efeito adaptação”, em que o aumento da renda é rapidamente incorporado ao padrão de consumo. “Ao ganhar mais, o indivíduo rapidamente ajusta seu padrão de consumo, incorporando novos gastos como se fossem indispensáveis. Soma-se a isso o viés do presente, que leva à priorização do consumo imediato em detrimento da saúde financeira futura”, pondera.
No curto prazo, o aumento do consumo sustentado por crédito pode dar a impressão de dinamismo econômico. “No entanto, esse movimento tende a ser insustentável. O endividamento e a inadimplência reduz a capacidade de consumo futuro das famílias, que passam a direcionar renda para o pagamento de dívidas”, disse Helder Cavalcanti.
Outro ponto relevante é a expansão recente do crédito entre a população de menor renda, muitas vezes utilizada para consumo básico e não para investimento, o que aumenta a vulnerabilidade financeira. Do ponto de vista comportamental, a chamada “mentalidade de escassez” leva a decisões mais focadas no curto prazo, dificultando o planejamento.
Organização financeira
A recuperação do equilíbrio financeiro depende menos do aumento da renda e mais de organização e disciplina, segundo o economista Helder Cavalcanti. Entre as recomendações, estão estabelecer um limite de gastos — o ideal é entre 70% e 80% da renda —, priorizar a quitação de dívidas com juros elevados, como o cartão de crédito, e evitar compras por impulso, avaliando a real necessidade antes de consumir. Também é importante criar o hábito de poupar regularmente, mesmo que com valores pequenos.
“É fundamental envolver toda a família na gestão financeira, promovendo transparência e responsabilidade compartilhada. Além disso, mecanismos práticos, como a automatização da poupança e a redução do acesso fácil ao crédito ajudam a evitar decisões impulsivas”, conclui Helder Cavalcanti.
Tribuna do Norte

