Celebrado nesta quarta-feira, 19 de março, o Dia de São José volta a mobilizar a esperança de agricultores e moradores do interior do Rio Grande do Norte por um bom inverno. Neste ano, a data chega acompanhada de previsão de chuva em todas as regiões do estado, segundo a Empresa de Pesquisa Agropecuária do RN (Emparn), e de sinais concretos de recuperação hídrica: os 69 reservatórios monitorados pelo Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn) somam, atualmente, 2,08 bilhões de metros cúbicos, o equivalente a 39,36% da capacidade total. Já no campo, o sentimento é de um “otimismo cauteloso”, conforme definição da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do RN (FETARN).
No imaginário do sertão, a chuva no Dia de São José é tradicionalmente vista como sinal de um inverno favorável. Para o meteorologista da Emparn, Gilmar Bristot, a crença popular tem fundamento físico. Segundo ele, a data ocorre muito próxima da mudança de estação no Hemisfério Sul, período em que as condições atmosféricas costumam favorecer a formação de chuvas no Nordeste.
De acordo com Bristot, a transição do verão para o outono coincide com maior aquecimento da faixa equatorial, o que reduz a pressão atmosférica e favorece o deslocamento de ventos úmidos para a região. Esse processo aumenta a instabilidade e cria um ambiente propício para precipitações. “Há um cenário levemente favorável nas condições de chuvas aqui para o estado, aqui para o Nordeste”, explicou Bristot.
Para este ano, a avaliação da Emparn é de cenário levemente favorável. O Oceano Pacífico está em condição de neutralidade, enquanto o Atlântico Sul se encontra mais aquecido do que o Atlântico Norte, configuração que ajuda a sustentar chuvas no Nordeste. A previsão, segundo Bristot, é de precipitações em torno da normalidade entre março e maio, com possibilidade de abril registrar volumes um pouco maiores que os de março.
“É preciso ter o Atlântico Sul mais aquecido que o Atlântico Norte, com os ventos alísios de Sudeste mais fracos, com os ventos alísios de Nordeste mais fortes. Além disso, o Oceano Pacífico tem que estar em condição neutra ou fria”, descreveu o meteorologista.
A previsão para o próprio Dia de São José indica chuva no interior e também em outras faixas do estado. Segundo a Emparn, há possibilidade de precipitações desde o litoral, passando pelo Agreste, região central e Oeste, embora com intensidade variável entre uma área e outra.
“Achamos que em abril vai chover um pouquinho mais que março, porque as condições desse aquecimento estão cedendo agora, principalmente da segunda quinzena de março”, explicou Bristot e completou: “para o dia de São José, tem previsão de chuvas no interior do estado, em praticamente todas as regiões”.
A leitura é acompanhada com atenção pelo setor produtivo rural. Para a FETARN, a palavra de ordem neste ano é “otimismo cauteloso”. A federação avalia que, diferentemente de anos marcados por secas severas, as projeções para 2026 são mais positivas, com expectativa de chuvas dentro da normalidade até maio, recarga de açudes e melhora da umidade do solo.
A entidade também projeta crescimento na produção de grãos, especialmente milho e feijão, no ciclo 2025/26, com possibilidade de recuperação das perdas registradas no ano passado. Segundo a federação, o foco neste momento é garantir que o agricultor familiar tenha acesso aos insumos necessários para aproveitar a janela de plantio, com monitoramento da distribuição de sementes, do corte de terras e do aporte do Governo do Estado ao programa Garantia-Safra.
Os efeitos das chuvas recentes já aparecem nos reservatórios monitorados pelo Igarn. Relatório divulgado na segunda-feira, 16, aponta que as reservas hídricas superficiais totais do Rio Grande do Norte acumulam 2.082.834.093 metros cúbicos, o equivalente a 39,36% da capacidade total, estimada em 5.291.480.649 metros cúbicos.
A maior recarga percentual da semana foi registrada na Barragem Campo Grande, em São Paulo do Potengi. O reservatório passou de 21,46 milhões para 22,42 milhões de metros cúbicos, saindo de 92,76% para 96,92% da capacidade. Outro destaque foi o açude Pinga, em Cerro Corá, que chegou a 88,42% da capacidade, ante 86,07% no relatório anterior.
Também apresentou aumento o açude Inharé, em Santa Cruz, que passou de 33,48% para 35,74%, e a barragem de Oiticica, segundo maior reservatório do estado, que saiu de 30,90% para 32,17% da capacidade, acumulando atualmente 238,8 milhões de metros cúbicos.
Já a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves, maior reservatório do RN, registra 989,3 milhões de metros cúbicos, o que corresponde a 41,69% da capacidade total. No levantamento anterior, o manancial estava com 41,95%, o que indica leve redução no período.
Apesar das recargas recentes, o quadro hídrico do estado ainda exige atenção. Dos 69 reservatórios monitorados, 19 permanecem com menos de 10% da capacidade, caso de Itans, do Sabugi, Passagem das Traíras, Esguicho, Bonito II, Dourado e 25 de Março. O açude Mundo Novo, em Caicó, segue seco.
Dia de São José
O Dia de São José, celebrado em 19 de março, é uma das datas mais simbólicas para o sertão nordestino. Tradicionalmente, agricultores observam a ocorrência de chuva nesse dia como sinal de bom inverno e de um período favorável para precipitações.
Para o homem e a mulher do campo, o simbolismo da data vai além da religiosidade. A FETARN define a data como o “termômetro da fé” no sertão. A tradição secular de que “se chover no dia de São José, o inverno está garantido” segue viva nas comunidades rurais.
Segundo a federação, se a chuva não chega até essa data, o agricultor começa a temer pela viabilidade do plantio. Por outro lado, chegar ao Dia de São José com a “terra molhada” representa sinal verde para o início mais intenso do trabalho no campo, unindo religiosidade e ciclo agrícola em práticas como bênçãos das sementes e da terra.
Tribuna do Norte
Foto: Arquivo TN