A indústria da pesca oceânica do Rio Grande do Norte voltou a enxergar perspectiva de recuperação após quase um ano marcado por incertezas, paralisações e perda de competitividade no principal mercado consumidor de seus produtos. Com a exclusão de atum, lagosta e outros pescados da lista de produtos atingidos pela nova tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos, o setor espera retomar as exportações aos padrões anteriores ao tarifaço imposto pelo governo do presidente Donald Trump. A expectativa do Sindicato da Indústria da Pesca do Rio Grande do Norte (Sindipesca-RN) é embarcar cerca de US$ 30 milhões em pescado para o mercado americano ainda em 2026, recuperando parte das perdas acumuladas desde o início da disputa comercial entre os dois países.
Para o presidente do Sindipesca-RN, Arimar França Filho, o alívio representa a possibilidade de reconstrução de uma cadeia produtiva que sofreu uma das maiores crises de sua história recente. Segundo ele, a sequência de tarifas elevadas tornou inviável boa parte das operações voltadas aos Estados Unidos, principal destino do atum fresco produzido no Estado. “Depois de um longo período de negociações, voltaremos praticamente ao cenário anterior ao tarifaço. É um alívio para toda a cadeia produtiva. Nossa expectativa é exportar cerca de US$ 30 milhões este ano e iniciar um processo de recuperação da atividade”, afirma. Hoje, a indústria da pesca gera aproximadamente 1.500 empregos formais no Rio Grande do Norte, além de milhares de ocupações indiretas ligadas à captura, beneficiamento, transporte e logística.
A crise começou em abril de 2025, quando o governo Trump instituiu uma tarifa adicional de 10% sobre produtos brasileiros. Nos meses seguintes, a escalada comercial levou à aplicação de sobretaxas que chegaram a elevar a carga tarifária para 50% sobre diversos produtos exportados pelo Brasil. Embora parte dos setores tenha sido posteriormente contemplada com exceções, a pesca oceânica permaneceu entre as atividades mais afetadas durante boa parte do período. O resultado foi imediato: embarcações deixaram de sair para o mar, contratos de exportação foram cancelados e empresas passaram a reduzir suas operações diante da perda de competitividade frente a fornecedores de outros países.
O impacto foi particularmente severo sobre a pesca do atum, produto cuja cadeia exportadora depende quase integralmente do mercado norte-americano. Sem alternativa comercial de curto prazo — já que o mercado europeu permanece restrito por questões sanitárias desde 2018 e o transporte de pescado fresco para a Ásia é economicamente mais complexo —, empresários foram obrigados a interromper parte da frota. Segundo Arimar França Filho, aproximadamente 30% das embarcações deixaram de operar durante o período mais crítico da crise, provocando redução da atividade econômica e perda de centenas de postos de trabalho. Em determinados momentos, apenas oito dos cerca de 30 barcos que tradicionalmente saíam para o mar permaneceram em operação.
“A pesca oceânica praticamente perdeu sua competitividade nos Estados Unidos. Tivemos embarcações paradas, redução de produção e um ambiente de enorme insegurança para empresários e trabalhadores. Muitos empregos foram perdidos ao longo desse período”, afirma Arimar. Segundo ele, a retomada das exportações permitirá que parte da frota volte gradualmente à atividade. “Ainda não voltaremos imediatamente ao nível máximo de operação, mas agora temos condições de reconstruir essa capacidade.”
Durante o período mais difícil da crise, a indústria buscou alternativas para manter parte da produção. Empresas intensificaram negociações com compradores no Reino Unido, Ásia e outros mercados, enquanto entidades representativas passaram a defender linhas emergenciais de crédito, apoio financeiro às exportações e a eliminação de barreiras sanitárias que impedem o retorno do pescado brasileiro ao mercado europeu. O setor também contou com apoio institucional da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do Ministério da Pesca e Aquicultura e do Governo Federal, que incluiu a cadeia pesqueira entre os segmentos contemplados pelo Plano Brasil Soberano, voltado à mitigação dos efeitos do tarifaço americano.
No âmbito estadual, o Governo do Rio Grande do Norte participou das articulações com representantes do setor produtivo e do governo federal, buscando preservar uma atividade considerada estratégica para a economia potiguar. As discussões envolveram medidas de apoio financeiro, manutenção da atividade industrial e preservação dos empregos, além de iniciativas voltadas à abertura de novos mercados internacionais. Paralelamente, o Ministério da Pesca também estruturou mecanismos para facilitar a emissão de certificações exigidas pelas autoridades norte-americanas, adequando o setor às novas exigências sanitárias impostas pelos Estados Unidos.
A retirada dos pescados da nova lista de produtos submetidos à sobretaxa de 25% representa uma mudança significativa para a indústria potiguar. Embora outros segmentos brasileiros continuem sujeitos às novas tarifas americanas, atum, lagosta e diversos pescados permaneceram entre as exceções anunciadas pelo governo dos Estados Unidos, preservando a competitividade da produção nacional no principal mercado consumidor. Para o Sindipesca-RN, essa decisão elimina um dos principais obstáculos enfrentados pelas empresas desde o início da guerra comercial.
Segundo Arimar França Filho, o momento agora é de reorganização da cadeia produtiva. “Vamos trabalhar para recuperar clientes, recompor parte da frota e retomar investimentos que precisaram ser adiados. O mercado americano continua sendo fundamental para a pesca oceânica do Rio Grande do Norte.” O dirigente ressalta, contudo, que a experiência recente reforçou a necessidade de ampliar a diversificação dos destinos das exportações para reduzir a dependência de um único comprador internacional.
A expectativa do setor é que a normalização das exportações permita uma recuperação gradual do faturamento ao longo dos próximos meses. Antes do início da crise tarifária, os Estados Unidos concentravam a maior parte das vendas externas do atum potiguar, produto que figura entre as principais exportações da indústria pesqueira do Estado. Com a retomada desse fluxo comercial, empresários esperam recuperar parte dos investimentos interrompidos e iniciar um novo ciclo de crescimento, agora sustentado tanto pela reabertura do mercado americano quanto pelo esforço de ampliação de novos destinos para o pescado produzido no Rio Grande do Norte.
Agora RN