Tarifa de Trump coloca em risco 21 mil empregos no RN, diz Fiern

A tarifa de 50% anunciada pelos Estados Unidos sobre a importação de produtos brasileiros acendeu um alerta na economia do Rio Grande do Norte. Segundo o presidente da Fiern (Federação das Indústrias do RN), Roberto Serquiz, a medida pode colocar em risco até 21 mil empregos diretos no Estado, atingindo em cheio setores como pesca, fruticultura, sal e mineração. “Estamos colocando em risco vidas, empregos e uma relação comercial de 200 anos com a maior economia do mundo”, afirmou Serquiz.
A taxa foi anunciada para entrar em vigor em 1º de agosto.
Dados da própria Fiern mostram que o Estado exportou para os EUA mais de US$ 67 milhões apenas no primeiro semestre de 2025, valor 120% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior. Deste total, aproximadamente US$ 47 milhões se concentram em setores diretamente afetados pela nova política tarifária. O pescado é um dos mais ameaçados: quase 100% da produção potiguar é exportada para os Estados Unidos. O sal, que tem 95% de sua produção escoada por navios com destino ao mercado americano, também enfrenta um cenário delicado.
“Estamos falando de 9 mil empregos na fruticultura, 4.500 no setor salineiro, além de toda a cadeia da pesca e da mineração”, pontuou Serquiz. Ele explicou que o aumento do dólar, impulsionado pela crise diplomática, já impacta a inflação e pode gerar efeitos em cascata na economia local.
A medida americana foi interpretada como política. “Não existe um fato econômico que justifique essa decisão. A política está interferindo diretamente em nossas exportações”, criticou Serquiz. Ele destacou que o Brasil mantém um déficit comercial com os EUA há mais de 15 anos, somando quase US$ 500 bilhões em exportações nesse período.
Na avaliação da Fiern, a situação exige articulação nacional. “Estamos conversando com os presidentes de federações de todo o País e com a CNI (Confederação Nacional da Indústria). Temos uma reunião marcada com o presidente da Confederação, Robson Braga de Andrade, para alinhar ações e consolidar estratégias”, afirmou. Ele também revelou que setores exportadores do RN foram convocados para discutir alternativas.
A possibilidade de redirecionamento das exportações é considerada, mas não deve ser imediata. “Você não prospecta um novo mercado da noite para o dia. O petróleo tem alguma flexibilidade. A fruticultura está no início da safra e já está enfrentando cancelamentos de pedidos. É muito sério”, alertou.
A Fiern também iniciou diálogo com o governo estadual. “A hora é de prevenção, de desenhar cenários, inclusive os piores”, disse.
Apesar do tom de urgência, Serquiz demonstrou esperança na via diplomática. “O Brasil precisa baixar os ânimos e buscar o diálogo. O governo americano sabe que a questão não é econômica. Nossa exportação envolve muito insumo estratégico para a indústria deles. A expectativa é de que se encontre um caminho técnico para contornar esse impasse”, concluiu.
Para o presidente da Fiern, Roberto Serquiz, o momento exige menos retórica política e mais diplomacia. Ao comentar a nova taxação imposta pelos Estados Unidos às exportações brasileiras, ele foi direto: “O ciclo eleitoral foi antecipado e a economia está sendo usada como palanque. Isso é condenável.
Precisamos esfriar os ânimos e colocar a técnica à frente”.
A crítica vem acompanhada de uma defesa firme do diálogo entre os governos. “O governo brasileiro está adotando a cautela correta. É importante que os canais diplomáticos sejam acionados e que a reciprocidade prevista em lei seja usada apenas como último recurso”, avaliou.
Serquiz citou que, além de mercadorias, o Brasil também exporta serviços relevantes aos EUA. “Entre 2015 e 2023, vendemos US$ 91 bilhões em produtos e US$ 256 bilhões em serviços como telemedicina, consultoria, engenharia e TI. A interdependência é real. Ninguém sairá ileso de uma escalada”, advertiu.
O presidente da Fiern reiterou que existe esperança de reversão. “Trump tem o hábito de voltar atrás. Já aconteceu em abril. Mas, até lá, precisamos estar preparados para o pior cenário. Isso significa diálogo interno com setores, plano de contingência com o governo estadual e organização nacional com a CNI”, resumiu.
Ele acredita que o próprio governo americano não vê razões econômicas para a medida. “Eles têm superávit conosco, dependem de muitos dos nossos produtos, e nossa exportação abastece a indústria americana. Se a racionalidade prevalecer, vamos encontrar uma solução”, afirmou.
‘Esticar a corda não resolve’, afirma José Vieira, do agro
O presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do Rio Grande do Norte (Faern), José Vieira, avaliou com preocupação o anúncio do governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, de novas tarifas sobre a importação de produtos brasileiros. Segundo ele, o caminho para evitar prejuízos ao Brasil e ao Rio Grande do Norte passa necessariamente pela diplomacia e pelo diálogo.
“A federação está vendo com muita apreensão e preocupação ao mesmo tempo. Nós avaliamos que a única forma de contornar isso é através do diálogo, da diplomacia. Não tem outro canal que não seja a diplomacia”, afirmou Vieira, em entrevista ao AGORA RN nesta segunda-feira 14.
O presidente da Faern destacou que o Brasil e os Estados Unidos mantêm relações comerciais históricas e que não há justificativa para atritos que prejudiquem essa parceria consolidada. “O Brasil sempre foi reconhecido como um país de diálogo, sempre foi parceiro dos Estados Unidos. Nós temos comércio com os Estados Unidos há mais de 200 anos. Foi o primeiro país que reconheceu a nossa independência.
Então, não justifica nenhum atrito entre Brasil e Estados Unidos”, declarou o presidente da Faern.
Vieira reforçou que discursos e provocações não ajudam a resolver o impasse e que o governo brasileiro, por meio do Itamaraty, precisa agir com serenidade e buscar uma solução negociada. “Esticar a corda, fazer discursos, narrativas, não resolve. Precisamos sentar, resolver isso tudo com a diplomacia, com o Itamaraty à frente”, emendou.
Questionado sobre os setores mais vulneráveis caso as tarifas sejam aplicadas, José Vieira apontou que as medidas podem atingir de forma direta o agronegócio e a indústria extrativa do Rio Grande do Norte.
Entre os produtos potiguares que podem ser impactados, ele citou exportação de peixes frescos, um dos diferenciais do Estado; frutas, como manga, embora em janelas específicas de exportação; e petróleo e sal marinho, que têm forte presença no mercado norte-americano.
Em relação ao Brasil como um todo, Vieira mencionou ainda produtos como celulose, carnes e suco de laranja entre os mais suscetíveis às novas tarifas.
Apesar da preocupação, ele disse confiar que o governo brasileiro terá maturidade para conduzir as negociações e proteger os interesses nacionais e dos produtores do Rio Grande do Norte. “Eu tenho confiança que o governo vai ter maturidade suficiente de colocar o time em campo, conversar, dialogar com o governo americano, com todos os outros países”, acrescentou.
Foto: José Aldenir
Agora RN