Alistamento para as Forças Armadas atrai mulheres destemidas e que buscam representatividade

As primeiras mulheres do curso para soldados da Marinha no Ciampa, no Rio de Janeiro: acesso às Forças Armadas era só por concurso
As primeiras mulheres do curso para soldados da Marinha no Ciampa, no Rio de Janeiro: acesso às Forças Armadas era só por concurso — Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

A primeira turma de mulheres que podem se alistar nas Forças Armadas do Brasil tem um perfil inspirador: elas são destemidas e sabem da importância da representatividade feminina para tornar os espaços mais democráticos. A crença de que o Exército, a Marinha e a Aeronáutica são fontes de estabilidade financeira também pesa na decisão pelo alistamento, mas o foco delas mesmo é mostrar que quando o assunto é servir ao país, força e pensamento estratégico independem do gênero.

Somente nos primeiros sete dias de janeiro, semana em que iniciaram as inscrições para as Forças Armadas, mais de 15 mil jovens que vão completar 18 anos em 2025 se alistaram voluntariamente na esperança de serem convocadas. O número é dez vezes maior que a quantidade de vagas disponíveis — são 1.465 vagas em Brasília (DF) e em outros 28 municípios de 13 estados.

Assim que soube, no ano passado, sobre a possibilidade de se alistar, a estudante Manuella Ribeiro, de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, não pensou duas vezes. O sonho de ingressar em uma das Forças é regado desde criança, inspirado no avô que serviu à Marinha por décadas. Na expectativa de começar a carreira militar o quanto antes, aos 14 anos, ela começou a prestar concurso para entrar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar, uma instituição de ensino médio que pertence à Força Aérea Brasileira. Como não conseguiu, a esperança no alistamento está vivíssima.

— O alistamento é uma luta de muito tempo que as mulheres têm e que desde pequena eu acompanho. É um sonho e uma oportunidade para todas nós colocarmos nossas habilidades à prova e mostrar que não somos fracas. Tudo o que os homens fazem nós vamos fazer, e isso não me assusta — afirma.

A primeira mulher a integrar o Exército Brasileiro foi Maria Quitéria de Jesus. Nascida em 1792, na Bahia, ela lutou na Guerra da Independência do Brasil, entre 1822 e 1823. Para conseguir estar entre os militares, a baiana se alistou disfarçada de homem, usando o nome de Soldado Medeiros. Seu talento foi tamanho que, anos depois, foi considerada a patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro e declarada uma heroína da Pátria.

Ao contrário do Brasil, países como EUA, França, Alemanha e Dinamarca têm anos de histórico de mulheres na linha de frente do Exército. A Noruega, por exemplo, foi o primeiro país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a liberá-las para ocuparem postos de combate, em 1985.

Por aqui, até o ano passado as brasileiras só podiam entrar para as Forças Armadas por meio de concurso para suboficiais e oficiais. São apenas 37 mil mulheres nas três Forças, representando 10% do efetivo. Hoje, elas atuam principalmente nas áreas de saúde, ensino e logística ou têm acesso à área combatente por meio de concursos públicos específicos em estabelecimentos de ensino.

De acordo com a professora Ana Luiza Paiva, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, a tímida e descentralizada participação feminina nas corporações na década de 1980, que posteriormente se intensificou nos anos 2000, ajudou a provocar mudanças na mentalidade nas Forças Armadas:

— O entendimento de que as mulheres podem e devem ocupar espaços tradicionalmente dominados por homens, tanto entre as próprias mulheres quanto dentro das Forças Armadas, pode ser considerado como um dos fatores explicativos para a alta procura pelo alistamento. Historicamente, o serviço militar também representa uma oportunidade de melhoria das condições materiais — explica.

Ao todo, são 1.010 vagas para o Exército, 300 para a Força Aérea e 155 para a Marinha. As mulheres poderão escolher em qual delas desejam atuar, e a opção será avaliada durante o processo de acordo com o perfil e local de atuação de cada candidata.

Neste primeiro momento, o Ministério da Defesa informou que só recrutará mulheres para quartéis que já tenham capacidade de recebê-las, com quartos, banheiros e políticas adaptados para esse público. Com investimento de cerca de R$ 2 milhões no próximo ano, a ideia também é inserir equipamentos de identificação facial e mais câmeras de segurança nos alojamentos, as fim de coibir casos de abuso e assédio sexual.

Em relação aos materiais de combate, mochilas e coletes serão ajustados com base na estatura das soldadas. Essas medidas já são seguidas pela Marinha e implementadas em instalações como a do Centro de Instrução Almirante Milcíades Portela Alves, o Ciampa, em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio.

— Hoje nós desenvolvemos palestras de prevenção junto às organizações militares. Estamos investindo ainda um pouco mais nos canais de ouvidoria para recebimento de denúncias e, especialmente, nos espaços de acolhimento, promovidos por profissionais de serviço social e de psicologia — pontuou a capitã de mar e guerra Eliane Rocha.

Acostumada com a rotina militar do colégio, a catarinense de Itajaí Cleide Ohana Nogueira diz ter uma noção de como funcionam as corporações e enumera suas metas: após cumprir os 12 meses de serviço militar, ela pretende prestar concurso para se tornar PM. Daí em diante, o céu é o limite. Ela quer alcançar a patente de coronel e, quem sabe, de marechal — cargo de alto nível, que no Exército Brasileiro é ocupado apenas em caso de guerra.

— Eu não me alistei por conta da estabilidade financeira, mas sim porque meu sonho mesmo é seguir a carreira militar. Achei gratificante saber que poderia me alistar justamente no ano que vou completar 18 anos. Ansiosa para viver essa experiência — diz a jovem.

A carioca Karoline Romão pegou dicas com os primos e tios, seus maiores incentivadores, sobre o que fazer durante o processo. Seu desejo é cursar Engenharia Civil e seguir carreira na Aeronáutica.

— Minha avó toda hora conta sorridente para os vizinhos que eu me alistei — comenta. — A dica do meu primo é começar a me preparar fisicamente. Só que ele pontuou que o sentimento de cada processo é único e individual. Quero chegar lá e dizer com sinceridade sobre o meu sonho e torcer para dar certo.

Para o antropólogo cultural Bernardo Conde, o interesse das recrutas é fundamental nesse marco histórico. Especialmente porque, apesar do fato de que irão receber o mesmo treinamento dos homens, ainda há desafios importantes, como o combate ao preconceito.

— As mulheres sempre quiseram ocupar esses espaços. E é importante que as Forças Armadas se atualizem e permitam que elas desenvolvam, sem quaisquer comparações com os homens, suas funções. Ampliar esse espaço é permitir também a construção de uma sociedade menos autoritária na imagem dos militares — conclui.

Fonte: O Globo

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