Natal lidera o ranking de cidades em alta para se trabalhar no Brasil
A capital potiguar ocupa o primeiro lugar entre dez cidades com melhor desempenho no número de contratações e chegada de profissionais no mercado de trabalho, segundo o ranking “Cidades em Alta”, realizado pelo Linkedin. O levantamento aponta que o desempenho foi puxado pelas oportunidades geradas nos setores de energia renovável e turismo, com destaque para as áreas de educação e indústria entre os empregadores. Para especialistas ouvidos pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, o cenário revela a demanda por profissionais qualificados e o aumento da competitividade de Natal como destino turístico.
O ranking foi publicado em julho deste ano e tem como base dados do Linkedin coletados no período de 1º de fevereiro de 2024 a 1º de fevereiro de 2026. Para avaliar o dinamismo do mercado, a metodologia considerou a análise do crescimento das contratações, o aumento da demanda por empregos e a chegada de novos profissionais. Aliado a isso, foram excluídas as regiões metropolitanas com mais de dois milhões de usuários na plataforma, a fim de destacar o crescimento das oportunidades em cidades de pequeno e médio porte.
A professora do Departamento de Economia (Depec) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Júlia Araújo, avalia o resultado de Natal como positivo e reitera a necessidade de considerar que os parâmetros analisam o desempenho da capital sem compará-la a grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro.
Ao avaliar a ascensão de Natal no mercado de trabalho, a pesquisa do Linkedin destaca o crescimento de 55% obtido pelo Rio Grande do Norte no fluxo de turistas internacionais via Aeroporto de Natal em 2025, além da escolha da capital potiguar como o Hub Regional de Serviços da Vestas, empresa dinamarquesa líder na fabricação e manutenção de turbinas eólicas.
Para além da contribuição dos setores de energia renovável e turismo, Júlia Araújo chama atenção para outro dado da pesquisa: os principais setores responsáveis pelas contratações foram os de educação superior, serviços de tecnologia da informação e atividades de consultoria em gestão empresarial. Já entre os principais empregadores, aparecem a UFRN, Teleperformance (TP) e Riachuelo.
“Esse conjunto de informações sugere que o dinamismo da economia natalense não está restrito aos setores tradicionalmente associados ao estado. Ele também se reflete na expansão de atividades intensivas em conhecimento e serviços especializados, sugerindo um mercado de trabalho mais diversificado e uma demanda crescente por profissionais qualificados”, aponta a professora.
Na avaliação do economista da Federação de Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio), William Figueiredo, além de apresentar um setor de serviços e turismo fortalecidos, Natal concentra grandes centros acadêmicos públicos e privados que ampliam a demanda por profissionais de educação superior e mantêm um ecossistema de inovação ativo.
Para o titular da Secretaria de Turismo (Setur) de Natal, Sanclair Solon, a capital potiguar vive um cenário de fortalecimento da sua atividade econômica, com desempenho estratégico do turismo. Ele atribui o resultado à ampliação da promoção da cidade como destino, aumento da conectividade aérea e ao diálogo entre poder público e setor produtivo. “O crescimento das contratações e da chegada de novos profissionais demonstra que a cidade voltou a inspirar confiança para investir, empreender, trabalhar, mas principalmente para morar”, completa.
A visão é acompanhada pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec). De acordo com a pasta, além de figurar como principal polo econômico do estado, Natal vem ampliando a capacidade de atrair profissionais qualificados e novos empreendimentos, beneficiando a região metropolitana e outras cidades.
“Esse desempenho também reflete o ambiente econômico favorável construído nos últimos anos, marcado pela retomada do turismo, pelo avanço dos investimentos em energias renováveis, pela expansão do setor de serviços e pela consolidação de políticas públicas voltadas à competitividade, à inovação e ao fortalecimento do ambiente de negócios”, destaca a Sedec/RN.
Além de Natal, outras três cidades da região Nordeste aparecem no ranking, incluindo Recife, Fortaleza (4º) e João Pessoa (9º). A professora Júlia Araújo explica que as capitais apresentam semelhanças na base de empregadores, com as diferenças se concentrando no perfil das empresas que mais contrataram e na organização do trabalho.
Na avaliação dela, a capital potiguar ocupa uma posição intermediária na oferta de trabalho flexível, com proporcionalmente menos vagas remotas e híbridas do que Recife, mas com maior disponibilidade em relação a João Pessoa. Os principais empregadores, por sua vez, apresentam perfis diferentes.
“A UFRN representa o ensino superior e o setor público; a TP, atividades de atendimento ao cliente e serviços empresariais, com funções de diferentes níveis de qualificação; e a Riachuelo reúne uma estrutura que vai além das lojas, incluindo fábrica, matriz, financeira, contact center, logística e áreas corporativas. Assim, o dinamismo captado pelo LinkedIn não está concentrado em um único segmento”, aponta.
Levantamento deve ser avaliado como complementar
Saindo da esfera do Linkedin, indicadores oficiais sobre a empregabilidade no país apontam para outras nuances no mercado de trabalho local. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Natal registrou um saldo de 2.146 empregos no primeiro semestre deste ano, com 49.792 admissões e 47.646 desligamentos. O saldo representa uma queda de 49,5% em relação ao do mesmo período do ano passado, correspondente a 4.257.
De acordo com Júlia Araújo, o resultado não pode ser considerado contraditório ao cenário do Linkedin, uma vez que os levantamentos analisam aspectos diferentes do mercado de trabalho. Enquanto o resultado do Caged pode indicar um ritmo menor de expansão da atividade econômica ou um crescimento menos disseminado entre os diferentes setores de Natal, o ranking mostra que a cidade mantém capacidade de atrair profissionais e dinamismo em alguns setores.
Uma visão semelhante é repercutida pelo economista William Figueiredo, para quem o resultado do primeiro semestre deste ano pode ter sido influenciado pela desaceleração no mercado de trabalho da Indústria da Construção. “Além disso, há uma dificuldade de contratação de mão de obra especializada e a manutenção do quadro de funcionários estável, com alto índice de rotatividade em segmentos do setor de Serviços, como facilities”, aponta.
Em termos de taxa de desocupação, por outro lado, os dados mais recentes do IBGE apontam que Natal registrou 5,9% de pessoas desocupadas no primeiro trimestre deste ano, o que representa redução em relação ao mesmo período do ano passado, quando a taxa foi de 6,6%. Aliado a isso, o resultado está abaixo do apresentado pelo RN, correspondente a 7,6%.
Especialistas apontam desafios
Na visão de Sanclair Solon, a manutenção da força de trabalho em Natal apresenta como principais desafios a continuidade de investimentos na qualificação profissional, ampliação da conectividade aérea, e fortalecimento de áreas paralelas ao turismo, como comércio, gastronomia e economia criativa. “O turismo tem um forte efeito multiplicador sobre a economia e, quando cresce de forma planejada, impulsiona a geração de emprego, renda e oportunidades em diversos segmentos produtivos”, completa.
Além da ampliação da qualificação, a Sedec/RN argumenta ser fundamental fortalecer a integração entre o setor produtivo, as instituições de ensino e os programas de formação profissional, garantindo que a oferta de mão de obra acompanhe a evolução dos investimentos.
Quem também enxerga o ensino como elemento decisivo na transformação do dinamismo no mercado em resultados mais amplos para a economia local é a professora Júlia Araújo. “Mais do que manter Natal em destaque em rankings como este, o objetivo deve ser converter esse desempenho em desenvolvimento sustentável, com ganhos de produtividade, melhoria da infraestrutura, fortalecimento da integração metropolitana e ampliação das oportunidades de emprego, renda e qualidade de vida para a população”.
Em relação à infraestrutura urbana, ela chama atenção para a necessidade de garantir o aprimoramento do transporte público e a melhor mobilidade para os trabalhadores. “O crescimento econômico tende a ultrapassar os limites administrativos da capital, intensificando os deslocamentos diários entre Natal e municípios como Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Macaíba e Extremoz. Sem investimentos em mobilidade e coordenação entre os municípios, parte dos ganhos econômicos e da qualidade de vida poderá ser comprometida”, completa.
Somada à melhoria da mobilidade a nível metropolitano, William Figueiredo defende a expansão do mercado imobiliário, com a revitalização do Centro e da Ribeira, além da ampliação do setor de turismo a partir da conclusão do processo de PPP do Centro de Convenções e a urbanização da praia de Ponta Negra.
Tribuna do Norte


