Estado contabiliza 148 casos de intoxicação por ciguatera em 6 meses
Foto: ALEX RÉGIS
O aumento de mais de 60% nos casos de ciguatera registrados no primeiro semestre deste ano levou a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap/RN) a intensificar as ações de vigilância epidemiológica, ampliar a orientação aos profissionais de saúde e fortalecer o monitoramento da doença em parceria com universidades e órgãos ligados à pesca. Até junho, o Rio Grande do Norte contabilizou 148 casos confirmados da intoxicação alimentar causada pela ciguatoxina, superando em mais de 60% os 88 registros de todo o ano de 2025.
Embora os números acendam um alerta, a coordenadora de Vigilância em Saúde da Sesap, Diana Rego, avalia que a elevação dos registros está diretamente relacionada à inclusão da ciguatera na lista estadual de doenças de notificação compulsória.
“Isso significa que todos os casos suspeitos precisam ser notificados pelos profissionais de saúde. Esse, para mim, talvez seja hoje o principal motivo para justificar esse aumento”, afirma.
A doença começou a ser monitorada oficialmente no Rio Grande do Norte apenas em 2022, quando foram registrados dez casos. Desde então, já são 259 casos notificados, com 46 surtos e dois óbitos. Para a Vigilância em Saúde, o período de monitoramento faz com que a série histórica ainda seja considerada curta.
A intoxicação ocorre após o consumo de peixes marinhos contaminados pela ciguatoxina, substância produzida por microalgas e acumulada ao longo da cadeia alimentar, principalmente em espécies de grande porte. No Rio Grande do Norte, análises identificaram a toxina com mais frequência na espécie bicuda ou barracuda, responsável por 51 casos (45,13%). Contudo, a toxina também foi encontrada nos peixes arabaiana (28 ocorrências), dourado (13 casos), cioba (5 casos), pescada-branca e galo-do-alto (4 casos cada), pargo (3 casos) e sirigado ou robalo (2 casos).
Como os sintomas são semelhantes aos de outras intoxicações alimentares — náuseas, vômitos, diarreia, dor de cabeça, coceira e manifestações neurológicas —, muitos casos podem passar despercebidos se o histórico de consumo de peixe não for investigado.
Diante do avanço das notificações, a principal estratégia adotada pela Vigilância em Saúde é ampliar a capacidade de identificação da doença pelos serviços de saúde.
“É importante que os profissionais de saúde saibam que existe a ciguatera, caso as pessoas cheguem às unidades com esses sintomas. Muitas vezes eles são inespecíficos e podem ser confundidos com outras intoxicações”, explica Diana.
A orientação da Sesap é que pacientes que apresentem sintomas gastrointestinais ou neurológicos após consumir peixe marinho procurem atendimento médico para investigação e notificação do caso. Outra frente de atuação é o aperfeiçoamento do conhecimento epidemiológico sobre a doença. Há cerca de duas semanas, a Secretaria reuniu pesquisadores das áreas de Biologia Marinha e Oceanografia e representantes da Secretaria de Agricultura e Pesca para discutir estudos que possam explicar o comportamento da ciguatera no litoral potiguar.
Segundo Diana Rego, ainda existem muitas lacunas científicas sobre a presença da toxina na costa brasileira.
“Estamos analisando todas as informações e buscando entender esse cenário para construir a melhor política pública de proteção à população. Ainda é uma doença muito recente para fazermos afirmações definitivas.”
Casos se concentram no primeiro semestre
Os dados disponíveis desde 2022 indicam que os registros costumam se concentrar nos primeiros meses do ano. Embora ainda não exista comprovação científica para esse comportamento, a Vigilância investiga possíveis fatores ambientais e climáticos envolvidos.
Entre as hipóteses levantadas estão o aumento da temperatura do mar, alterações na biodiversidade marinha e até mudanças no comportamento humano durante o período de veraneio, quando há maior circulação de embarcações e aumento do consumo de pescado.
Paralelamente ao monitoramento, a Sesap mantém ações educativas com as comunidades pesqueiras e o setor produtivo. A principal recomendação continua sendo evitar o consumo das espécies que já apresentaram confirmação laboratorial da presença da ciguatoxina, uma vez que não existe forma de identificar visualmente um peixe contaminado.
“Ela é uma toxina termorresistente. Mesmo com o peixe cozido ou frito, continua presente. Por isso, nossa nota técnica recomenda evitar o consumo dessas espécies, principalmente da bicuda ou barracuda.”

