SESI Escola do RN é selecionada para a final nacional do Desafio Liga Jovem por criar óculos inteligente
Uma tecnologia criada para tornar os deslocamentos mais seguros e ampliar a autonomia de pessoas com deficiência visual levou a SESI Escola São Gonçalo do Amarante a um resultado inédito. A instituição conquistou, pelo segundo ano, o título estadual do Desafio Liga Jovem, realizado pelo Sebrae, e garantiu pela primeira vez uma vaga na final nacional da competição – que será em novembro, em Brasília. O projeto premiado Vision Tech foi desenvolvido por cinco estudantes da 1ª série do Ensino Médio.
A equipe formada por Isabelle Lawane Cardoso da Silva, Manuella França Lopes da Silva, Maria Julia Oliveira de Albuquerque, Mighuel Henrique de Lima Costa e Miguel Pacheco Trappel criou o V-Sense, um óculos inteligente pensado para auxiliar pessoas com deficiência visual na identificação de obstáculos durante a locomoção. O projeto tem orientação dos professores Wendell de Oliveira e Zânia Lobo.
A solução utiliza um sensor ultrassônico para identificar obstáculos à frente do usuário em tempo real. Quando um objeto é detectado a partir de aproximadamente 30 centímetros, o dispositivo emite um alerta por vibração. A proposta é atuar de forma complementar à bengala, especialmente na identificação de obstáculos aéreos ou localizados entre a altura do tronco e da cabeça, que podem não ser percebidos pelo instrumento tradicional.
“A ideia nasceu da observação de dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência visual nos espaços urbanos. A partir disso, os estudantes passaram a pesquisar possibilidades de aplicação da tecnologia em acessibilidade, mobilidade e segurança, buscando desenvolver um dispositivo de baixo custo e com potencial de utilização no dia a dia”, disse.
Antes de chegar à competição, o projeto também foi levado para perto das pessoas que poderiam utilizá-lo. Os estudantes realizaram entrevistas e testes no Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos (IERC), parceiro no desenvolvimento da proposta.
De acordo com dados apresentados pela equipe, 80% dos participantes da validação consideraram a tecnologia um complemento essencial à bengala. A experiência também permitiu aos alunos identificarem necessidades e fazerem ajustes no projeto a partir da percepção dos usuários.
Segundo a professora Zânia Lobo, o desafio amplia o olhar dos estudantes para além da sala de aula, ao estimulá-los a perceber as necessidades de outras pessoas e da própria comunidade. “Eu acho interessante o desafio porque ele trabalha com o aluno a ideia de olhar para o outro, perceber uma necessidade, pensar na sua comunidade e em um problema que existe nela e tentar resolvê-lo. Quando a nossa escola se prontificou a participar, isso também mostra que a responsabilidade social do SESI está inserida na responsabilidade do professor de transmitir esses valores aos alunos”, afirma.
Para a superintendente regional do SESI-RN, Danielle Mafra, o resultado mostra como a educação pode transformar problemas observados pelos estudantes em oportunidades para criar soluções. “Esse resultado representa muito mais do que uma conquista em uma competição. Ele mostra o que acontece quando o estudante é estimulado a observar a realidade, identificar um problema e se colocar como parte da construção de uma solução. O Vision Tech traduz esse propósito ao unir conhecimento, tecnologia, inovação e compromisso social”, afirma.
Além do desenvolvimento do protótipo, os estudantes estruturaram um modelo de viabilidade financeira para o V-Sense, considerando possibilidades de comercialização no atacado e no varejo. O planejamento inclui custos de materiais, investimento inicial, margem, ponto de equilíbrio e prazo estimado de retorno.
Para Ana Karenine Medina, coordenadora de Educação do SESI-RN, a experiência também evidencia o papel do trabalho interdisciplinar na formação dos estudantes. “Projetos como o Vision Tech mostram que aprender não está restrito a uma disciplina ou a um conteúdo específico. Os estudantes precisam pesquisar, interpretar informações, utilizar conhecimentos científicos e matemáticos, desenvolver uma solução, testar, ouvir as pessoas e pensar também na viabilidade daquele produto. É um processo que desenvolve competências acadêmicas, tecnológicas, empreendedoras e socioemocionais ao mesmo tempo”, explica.

Desafio Liga Jovem
A conquista estadual é resultado de uma mobilização que envolveu cerca de 800 estudantes da SESI Escola São Gonçalo do Amarante, comenta Anderson Vieira, gerente da unidade. Participaram das atividades todos os alunos dos 8º e 9º anos do Ensino Fundamental e das 1ª, 2ª e 3ª séries do Ensino Médio. Grande parte dos projetos inscritos foi desenvolvida a partir de atividades em sala de aula nas áreas de Linguagens, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Ciências da Natureza e Matemática.
“Durante o processo, os estudantes foram estimulados a identificar problemas reais, pesquisar, formular propostas, desenvolver protótipos e apresentar suas ideias”, relatou o gerente. De acordo com ele, a participação também envolveu professores de diferentes áreas, supervisão pedagógica, psicologia escolar, biblioteca, equipe de Tecnologia da Informação, setor administrativo e profissionais de apoio da escola.
A SESI Escola São Gonçalo do Amarante participa do Desafio Liga Jovem há quatro anos. Em 2026, tornou-se bicampeã estadual na categoria Ensino Médio. No ano passado, a instituição também chegou à semifinal da competição na categoria Ensino Fundamental. A classificação do Vision Tech estabelece agora um novo marco: será a primeira equipe da escola a disputar a final nacional.
A experiência também deixou um aprendizado que vai além do resultado da competição. “A gente não pensou na gente, a gente pensou nas pessoas, pensou na sociedade. E acho que esse ensinamento que o projeto nos trouxe é muito maior do que qualquer conquista”, afirma Isabelle Lauane.
Já Manuella França destaca que o desenvolvimento da solução foi resultado de três anos de trabalho e persistência. “A gente pegou uma dor mesmo da sociedade, dos deficientes visuais, que não têm muitas oportunidades de equipamentos que ajudem na sociabilidade, autonomia e independência. Então, a gente criou esse projeto para ajudar mesmo nessa dor”, explica.
A Missão Nacional do Desafio Liga Jovem ocorre em Brasília. A chegada das delegações está prevista para os dias 29 e 30 de novembro, seguida da apresentação dos projetos às bancas, entre 1º e 4 de dezembro. O anúncio dos vencedores ocorrerá no dia 4, durante o Festival LED, e o retorno das equipes está previsto para 5 de dezembro.
Tribuna do Norte





